Afinal, quem realmente precisa de Análise de Negócios?

Como assim “quem realmente precisa de Análise de Negócios”? Você já viu algum negócio que não precisasse de análise? Pois é! Não sei o que muita gente pensa quando ouve a expressão Análise de Negócios. Só sei que eu penso em análise de contexto, compreensão de modelos mentais, agregação de valor ao cliente e ao negócio, riscos, problemas, oportunidades e necessidades, estratégia, soluções e mudanças para a evolução de resultados. Ou seja, enxergo a Análise de Negócios como uma área do conhecimento praticada diariamente por milhões de empresários, gestores, colaboradores, empreendedores e consultores, só que a maioria dessas pessoas não possui métodos e ferramentas para fazê-lo de forma rápida e efetiva. Escrevi este artigo com o intuito de desmistificar uma área que tanto prezo, e que deveria ser mais disseminada na sociedade para o benefício de nossa economia.

Análise de Negócios é para Todos!

Este é um assunto que, por mais simples que pareça, gera muita polêmica no mercado profissional. Para muitos, a Análise de Negócios é uma responsabilidade exclusiva daqueles profissionais que ocupam um cargo de Analista de Negócios ou que possuem uma certificação internacional que dá garantia sobre o domínio de seu conhecimento. Este posicionamento fortalece uma crença limitante, muito presente nos projetos de tecnologia, que impede a comunicação entre as partes interessadas na solução de um problema e a equipe que desenvolve a solução. Ainda se acredita que um único Analista de Negócios será capaz de fazer o “leva e traz” de informações e a disseminação do conhecimento necessário para o desenvolvimento de um projeto. Minha experiência de mais de 25 anos trabalhando com tecnologia e 15 anos com gestão empresarial me leva a crer que isto é um ledo engano.

Não pretendo desprezar o cargo de Analista ou desqualificar o processo de certificação, pois sempre recomendo a contratação de analistas quando a quantidade e complexidade da demanda de análise de negócios supera a capacidade acumulada por outros membros de uma equipe. O que quero aqui é trazer à tona que, cada vez mais, todos aqueles que possuem responsabilidade e autoridade sobre um negócio (criação, desenvolvimento e gestão) devem praticar e se qualificar em Análise de Negócios. Certificações sérias podem atestar o conhecimento e a experiência de um profissional na área, mas somente resultados positivos irão maximizar as chances de sucesso nos próximos empreendimentos. No que me baseio para fazer estas afirmações? Nas definições apresentadas pelo Instituto Internacional de Análise de Negócios (IIBA.org) em suas três edições do Business Analysis Body of Knowledge (BABOK):

Versão 1.0 (2005) – Análise de Negócios é o conjunto de tarefas, conhecimentos e técnicas necessários para se identificar necessidades e determinar soluções para os problemas de negócios.

Versão 2.0 (2009) – Análise de Negócios é o conjunto de atividades e técnicas utilizadas para servir como ligação entre as partes interessadas, no intuito de compreender a estrutura, políticas e operações de uma organização e para recomendar soluções que permitam que a organização alcance suas metas.

Versão 3.0 (2015) – Análise de Negócios é a prática de viabilizar mudanças numa organização mediante a definição de suas necessidades e a recomendação de soluções que agreguem valor às partes interessadas.

Se você concordar comigo, a Análise de Negócios não perdeu sua essência de identificar necessidades e determinar soluções para os problemas de negócios nesta última década. O que aconteceu foi que a evolução de seu conhecimento convergiu para dois elementos que não estavam explícitos nas definições anteriores: Valor e Mudança. É neste ponto que faço a pergunta: Você realmente acredita que esta missão não se aplica a outras áreas do conhecimento? Vou dar alguns exemplos de como a Análise de Negócios pode contribuir significativamente para o crescimento de muitos profissionais de mercado:

  1. Empreendedores devem praticar análise de negócios caso queiram minimizar os riscos iniciais de seu empreendimento, mediante uma análise crítica de seus modelos de negócios, produtos, serviços e resultados. Modelos como Business Model Canvas (e mais uma dúzia de canvases), Lean Startup e Design Thinking se popularizaram nos últimos anos por capacitarem profissionais leigos a tomarem decisões mais assertivas. Na minha opinião, o mercado evoluiu muito fazendo com que empreendedores invistam em testes de hipóteses ao invés de ficarem escrevendo Planos de Negócios para “inglês ver”.
  2. Gestores de Negócio devem praticar análise de negócios caso queiram compreender as relações de causa-efeito entre capacidades e resultados empresariais. Neste caso, é comum vermos ferramentas de análise como SWOT, Espinha de Peixe, BSC, Business Case, Project Charter, Cronograma, entre muitas outras, sendo utilizadas diariamente por equipes de gestão. No entanto, é bem provável que estes gestores deleguem a atividade de análise para seus técnicos-especialistas e retardem suas decisões devido a um conhecimento limitado de ferramentas de análise.
  3. Consultores empresariais devem praticar análise de negócios quando precisam compreender o cenário atual, suas limitações e causas relacionadas, facilitar a construção de um cenário futuro e seus benefícios relacionados, bem como identificar recursos/soluções e estratégias de transformação para a efetiva melhoria do negócio. Consultores empresariais vivem de Análise de Negócios, mas tenho visto uma grande quantidade de profissionais atuando de forma tendenciosa com suas “soluções de prateleira”.
  4. Consultores de Recursos Humanos devem praticar análise de negócios, pois são um caso específico de consultoria empresarial, cujas soluções envolvem conhecimentos de gestão de pessoas e operações trabalhistas. Um consultor de RH, que pratica Análise de Negócios, jamais “tiraria um pedido” de contratação de novos profissionais para uma determinada área sem antes questionar os reais problemas de negócio e validar a contratação como uma solução efetiva para o problema. Imagine que, neste caso, ações de capacitação ou empoderamento da equipe poderiam elevar o nível de capacidade do processo. Logo, a contratação de mais pessoas seria uma decisão equivocada que acarretaria em perdas para o negócio.
  5. Product Owners devem praticar análise de negócios caso queiram compreender as reais necessidades do público alvo de seus produtos, identificar oportunidades de alavancagem, desenvolver uma estratégia para fracionamento e entrega de releases, gerenciar as prioridades de um backlog de desenvolvimento/manutenção, validar os resultados de cada entrega, propor melhorias e disseminar seus conhecimentos pela equipe.
  6. Gerentes de Projetos devem praticar análise de negócios caso queiram compreender como uma estratégia de produto irá suportar uma estratégia de negócios mediante uma correta estratégia de processos. É a orquestração efetiva destas três perspectivas estratégicas que irá maximizar as chances de sucesso de um projeto complexo,  e não o simples sequenciamento de atividades e alocação de recursos.
  7. Analistas de Testes devem praticar análise de negócios sempre que se dedicarem ao levantamento de informações sobre o ambiente de negócio para a compreensão dos cenários que irão reproduzir e avaliar, a fim de comprovar a eficácia do produto a ser entregue ao cliente. É comum vermos analistas de testes detectando inconsistências em modelos de dados e regras de negócios. Se, capacitados, poderiam antecipar muitas falhas identificadas tardiamente na homologação dos produtos.
  8. Desenvolvedores de Software devem praticar análise de negócios quando forem analisar objetivos, restrições, capacidades, regras e exemplos daquilo que será projetado e implementado. Já testemunhei muitos exemplos concretos de redução do número de falhas e tempo de produção com a devida capacitação da equipe em técnicas e ferramentas de análise de negócios. No caso dos desenvolvedores, o maior benefício é torná-los competentes a questionar o que é demandado com argumentos racionais e evitar o desperdício da produção daquilo que não é necessário num produto.

Eu poderia ficar citando dezenas de exemplos de profissionais que poderiam se beneficiar do conhecimento e práticas de Análise de Negócios. Alguns outros exemplos que já testemunhei são Advogados, Analistas de Marketing, Analistas Financeiros, Designers, Coaches, entre outros. Então, quem realmente precisa de Análise de Negócios? Na minha opinião, necessitam de Análise de Negócios todos os profissionais do conhecimento que desejam agregar mais valor a seus clientes mediante uma adequada identificação de necessidades, determinação de soluções e facilitação da mudança.

Mais que uma Profissão, Competências Essenciais

Me tornei praticante de Análise de Negócios sem nunca ter tido o título de Analista de Negócios. Na realidade, com um perfil de solucionador de problemas, típico dos Engenheiros (em especial os eletricistas), sempre pratiquei análise de negócios quando procurava compreender o real problema do ambiente alvo antes de me debruçar sobre o universo das soluções. De Analista de Sistemas, passei para Analista de Processos e Gerente de Projetos no final dos anos 90. No início dos anos 2000, me tornei empresário e consultor de gestão, passando para Agile Coach & Trainer ainda nesse período. Em todos esses papéis, sempre fiz uso de diversas práticas e técnicas da Análise de Negócios. Tenho que confessar que a cultura agilista me levou para a sistematização do conhecimento da Análise de Negócios em 2009, quando passei a integrar a equipe que desenvolveu a primeira edição da Agile Extension to the BABOK. Acabei até fundando e presidindo o IIBA Porto Alegre Chapter em 2010.

Hoje, trabalho com foco na resolução de problemas corporativos complexos, que envolvem gestão estratégica, gestão da informação e conhecimento, gestão da melhoria e mudança, de produtos e processos a competências e cultura organizacional. Como me identifico? Consultor, Coach, Agente de Mudança, Facilitador, Provocador … Em todas estas identidades, pratico sempre Análise de Negócios, procurando aprimorar cada vez mais meus conhecimentos e habilidades no assunto. É por esta razão que vejo a falta de competência de muitos profissionais de gestão em conhecimentos, atividades e técnicas de Análise de Negócios como um dos maiores problemas empresariais da atualidade. Muitos desses gestores não estão capacitados para enfrentar os desafios de liderar profissionais do conhecimento em busca constante de propósito, maestria e autonomia naquilo que fazem, com técnicas ultrapassadas de análise e liderança. Na minha opinião, isto é um problema de Análise de Negócios que deve ser tratado com seriedade no mercado empresarial.

Por onde devo começar? Considero o Instituto Internacional de Análise de Negócios (IIBA) a melhor fonte de referências para este assunto. Associados tem acesso a muitas publicações, biblioteca online, comunidades regionais, discussões e palestras sobre diversos temas associados ao seu corpo do conhecimento. Para quem ficou curioso com os temas tratados na Análise de Negócios, dou como referência parte da estrutura do BABOK (um guia de conhecimentos, práticas e ferramentas de domínio público, não uma metodologia proprietária):

  1. Planejamento e monitoramento da análise de negócios (como fazer)
  2. Técnicas para a captação de informações (elicitação) e colaboração (como se comunicar)
  3. Gerenciamento do ciclo de vida de requisitos (como “controlar” as informações)
  4. Análise da estratégia (de um projeto, organização ou empreendimento – quais problemas e soluções)
  5. Análise de requisitos e definição do projeto (como aprender e especificar)
  6. Avaliação das soluções (como comprovar a efetividade)
  7. Competências essenciais do profissional (como desenvolver um profissional)
  8. Técnicas (50 no BABOK + 20 na Agile Extension + inúmeras não mapeadas)
  9. Perspectivas (onde aplicar)

Não acredito que a leitura de um guia de 514 páginas irá torná-lo competente em Análise de Negócios. Procure se aproximar de comunidades de prática, profissionais experientes e entidades sérias para orientá-lo em sua formação e crescimento profissional. Desconheço de formação acadêmica dedicada à Análise de Negócios, mas é possível encontrar cursos de extensão e disciplinas de pós-graduação dedicadas à este tema (eu mesmo ministro uma disciplina de 36h denominada Lean Business Analysis no curso de especialização em Tecnologias Aplicadas a Sistemas de Informação com Métodos Ágeis na UniRitter/RS). Também é possível encontrar cursos oferecidos por empresas de consultoria e treinamento em todo o país. Certifique-se de que o mesmo é ministrado por profissional competente (formação e experiência) e com um tipo de abordagem que faça sentido para seu contexto profissional.

Desejo muito sucesso em sua jornada e me coloco à disposição para contribuir, mesmo que remotamente, com suas escolhas neste caminho. Estarei publicando mais conteúdo e referências sobre Análise de Negócios com uma abordagem pragmática (Lean + Agile) nos meus canais do Medium e Facebook.

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